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Buscando Deus


 

BUSCANDO DEUS

(Ederson Malheiros Menezes)



Creio que, se fosse possível catalogar as falas ou testemunhos das pessoas sobre o que as levou a buscar por Deus, muitos relatos poderiam ser organizados em torno das limitações humanas.

Deus é frequentemente encontrado diante da doença, da perda, do sofrimento ou de situações em que a própria existência — ou o sentido da vida — é colocada em questão pelas fragilidades do ser humano.

Parece ser mais fácil pensar em Deus quando as coisas ficam difíceis.
Deus surge como última esperança, para além das capacidades humanas.

Há questões existenciais, tragédias, curiosidades, e até tentativas de desmistificação. As motivações são variadas, mas quase sempre há em vista algum tipo de conforto diante de algo inquietante.

Talvez se possa dizer que a busca por Deus, ao menos em um primeiro momento, nasce de uma inquietação humana — aquilo que muitos definem como crise existencial ou consciência da finitude.

As causas dessa inquietação são múltiplas e atravessam uma enorme diversidade de experiências.

Uma questão decisiva, porém, é distinguir se o conforto encontrado se dá em Deus ou em uma ideia de Deus.

Se afirmamos que encontramos conforto em Deus, supomos uma experiência direta com Ele. Mas essa experiência pode ser facilmente confundida com uma construção humana: uma teologia, talvez; até mesmo uma teologia pessoal.

Um Cristo Redentor de braços abertos já comunica uma ideia de Deus. Os enunciados sobre seus atributos reforçam imagens que podem fortalecer a fé — mas não garantem, necessariamente, uma experiência objetiva com Deus.

“Eu senti” é uma expressão comum para descrever uma experiência com Deus. Ainda assim, continua sendo uma linguagem profundamente humana.

Muitas vezes, aquilo que não se compreende é erigido como milagre — até que alguém consiga explicar.

A busca por Deus se assemelha, então, a alguém que grita à beira de um grande cânion. O que se ouve de modo reconhecível, na esfera humana, é apenas o eco da própria voz.

Na teologia sistemática e dogmática, a revelação é situada na história da fé, nas epifanias divinas, nas Escrituras Sagradas e na encarnação e vida de Jesus Cristo.

Para além disso, o tatear da revelação permanece como estar à beira do cânion: gritar e escutar o eco.

Quem grita acredita.
E quem escuta o eco reconhece a própria busca.

 

Ederson Malheiros Menezes 

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